30 Dezembro 2009

os loucos

On the road, Jack Kerouac

"...nessa época eles dançavam pelas ruas como piões e eu me arrastava atrás como sempre tenho feito toda minha vida atrás de pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas que me interessam são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou falam chavões...mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício pela noite..."

25 Novembro 2009

Cansei de esperar você

Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho
Quando cansei de esperar você
Vi minha estrela maior renascer
Vi minha vida mais colorida
Cheia de encanto e de
mais prazer

Vi quando o mar se abriu
Deixando passar todo
meu sentimento
Até na chuva e no vento
Vi a luz na poesia

Minha alegria voltou
Brilhando no alvorecer
Quando deixei de amar
E esperar por você

25 Junho 2009

Os Submersos

Carlos Drummond de Andrade -poema escrito em 1973 em homenagem às placas de ruas submersas em Rubineia.

"Poetas amigos que eram
placa de rua em Rubineia:
que tal a vida aí em baixo do lago?
A princípio é meio estranho, não?
Compreendo, depois a gente se habitua.
Nenhuma casa em que moramos
se entrega imediatamente.
É preciso entendê-la, conquistá-la.
E casa de água, então?
Uma rua de água, placa
indicando esquina de água
a transeuntes peixes.
Não é todo dia que um objeto
destinado a servir debaixo do sol
se encontra em semelhante situação.
Já sei poeta Bandeira que você está rindo,
achando graça no desconforto líquido,
captando com olhar agudo
a mobilidade de tons diferentes de água,
para lhes atribuir correspondência verbal.
E você, poeta Cecília, o que conta
dessa viagem às vidas submersas,
as Holandas hidroelétricas,
país de água de Ilha Solteira
que romanceiro algum ainda não cantou.
Está conferindo o verde de seus olhos
com esse verde piscina?
Olha: aquele velhinho ali foi seu vizinho
aos tempos de Cosme Velho.
Uma reverência a Machado de Assis,
mesmo em camadas profundas,
precisamente belas,
é de bom preceito.
O ácido Graciliano
está mais adiante
e ainda não se conformou
em ser nome de rua.
Acha que tudo isso é palhaçada.
Não importa. Se os
nomes falam entre si,
as placas também dialogam
e a dele tem um bom papo
de quem viveu momentos fortes
e, como ele, sabe comunicar-lhes
a emoção em linguagem ríspida.
A represa não é um cárcere,
como aquele em que o romancista
ruminou por faltas não cometidas.
É uma nova Rubinéia, isenta
das limitações municipais da superfície.
Sem trânsito de veículos assustadores,
sem impostos, papéis,
discursos, notícias, bases mil,
que toda cidade se corta.
Percebo, afinal, essa é a
Pasárgada de Manuel Bandeira,
oculta em oito milhões
de metros cúbicos de água.
Eis aí meus caros amigos:
a vocês uma boa sorte
e muito progresso e alegria."

23 Fevereiro 2009

Eu sambo mesmo

"Há quem sambe muito bem
Há quem sambe por gostar
Há quem sambe por ver os outros sambar
Mas eu não sambo para copiar ninguém
Eu sambo mesmo com vontade de sambar
Porque no samba eu sinto o corpo remexer
E é só no samba que eu sinto prazer
Ah! quem não gosta do samba
Não dá valor
Não sabe compreender
Um samba quente
Harmonioso e buliçoso
Mexe com a gente
Dá vontade de viver
A minoria diz que não gosta
Mas gosta
E sofre muito
Quando vê alguém sambar
Faz força, se domina
Finge não estar
Tomadinha pelo samba, louca pra sambar
Eu sambo mesmo
Eu sambo assim
Eu sambo que sambo
Eu sambo mesmo assim"


Música "Eu sambo mesmo"
Autoria: Janet de Almeida
No CD "Braseiro" de Roberta Sá
Ano 2005

30 Dezembro 2008

Se eu pudesse...

"O Natal das árvores de Natal cobertas de algodão imitando neve, do Papai Noel em sua roupa vermelha debruada de arminho, o Natal de "Jingle Bell" que tomava conta de tudo a partir das grandes lojas de departamentos, esse Natal nos parecia odiosamente vulgar e começamos a nos queixar disso em voz alta, para silencioso escândalo das pessoas que esperavam o ônibus junto conosco, carregadas de presentes. Nossas reclamações começaram num tom brando e quase analítico, mas num crescendo, foram atingindo um gosto de humor negro deliberado e terminaram com um de nós dizendo [...]: Se eu pudesse, eu MATAVA o Natal."

Trecho de Verdade Tropical, de Caetano Veloso



Título: Verdade tropical
Ano: 1997
Companhia das Letras, 524 pp.

11 Agosto 2008

Música, música, música

"Junto do homem esquálido havia uma latinha de zinco onde barulhavam secas as moedas dos que o ouviam com gratidão por ele lhes planger a vida. Só agora entendo e só agora brotou-se-me o sentido secreto: o violino é um aviso. Sei que quando eu morrer vou ouvir o violino do homem e pedirei música, música, música".





A Hora da Estrela
Clarice Lispector, 1977
87 p., Ed. Rocco

15 Julho 2008

Seres Tupy

Seres ou não seres
Eis a questão
Raça mutante por degradação
Seu dialeto sugere um som
São movimentos de uma nação
Raps e Hippies
E roupas rasgadas
Ouço acentos
Palavras largadas
Pelas calçadas sem arquiteto
Casas montadas, estranho projeto
Beira de mangue, alto de morro
Pelas marquises, debaixo do esporro
Do viaduto, seguem viagem
Sem salvo conduto é cara a passagem
Por essa vida, que disparate
Vida de cão, refrão que me bate
De Porto Alegre ao Acre
A pobreza só muda o sotaque




Composição: Pedro Luis
Álbum: Vagabundo
Artistas: Ney Matogrosso e PLAP
Ano: 2004

04 Abril 2008

Diferente seríamos nós

"Aí a gente passava por um baita dum mostruário, todo de vidro. [...] Os pássaros que ficavam mais perto da gente eram empalhados e presos por arames, e os outros, mais longe, eram pintados na parede, mas todos davam a impressão de estar voando para o sul.[...] Mas a melhor coisa do museu é que nada lá parecia mudar de posição. Ninguém se mexia. A gente podia ir lá cem mil vezes, e aquele esquimó ia estar sempre acabando de pescar os dois peixes, os pássaros iam estar ainda a caminho do sul [...]. Ninguém seria diferente. A única coisa diferente seríamos nós. Não que a gente tivesse envelhecido nem nada. Não era bem isso. A gente estaria diferente, só isso. [...] Quer dizer, a gente estaria diferente, de um jeito qualquer - não sei explicar direito, mas o negócio é assim mesmo."

Trecho do livro O apanhador no campo de centeio.



Livro: O apanhador no campo de centeio
Autor: J.D. Salinger
Tradução: A. Alencar, A. Rocha, J. Dauster
Ano: 1951
Editora do Autor

12 Dezembro 2007

Ainda

Vou dizendo
Certas coisas
Vou sabendo
Certas outras
São verdades
Amizades
Aventuras
Quem alcança
Mora longe
Da mudança
Do seu nome
Alegria
Vã tristeza
Fantasia
Incerteza
São verdades
São procuras
Amizades
Aventuras
Quem avança
Guarda o amor
Guarda a esperança
Sem favor
Ainda

Música 'Ainda' executada no filme 'O céu de Lisboa'

Ficha técnica:
Música
Título: Ainda
Grupo: Madredeus
Ano: 1994
Autoria: Pedro Ayres Magalhães
Filme
Título: O Céu de Lisboa
Título original: Lisbon History
Diretor: Win Wenders
Ano: 1994

04 Dezembro 2007

O estrangeiro

"No mesmo momento, o suor acumulado nas sobrancelhas correu de repente pelas pálpebras, recobrindo-as com um véu morno e espesso. Meus olhos ficaram cegos por trás daquela cortina de lágrimas e de sal. [...] Foi então que tudo vacilou. O mar trouxe um sopro espesso e ardente. Pareceu-me que o céu se abria em toda a sua extensão, deixando chover fogo. Todo o meu ser se retesou e crispei a mão sobre o revólver. [...] Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destruíra o equilíbrio do dia, o silêncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. [...] Era como se desse quatro batidas secas na porta da desgraça."



Trecho do livro "O Estrangeiro" de Albert Camus.

Título original: "L'étranger"
Autor: Albert Camus
Ano: 1957
Tradução: Valerie Rumjaneck
No. de páginas: 124

31 Agosto 2007

Banda Larga



Criar meu web site
Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje
Que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve um oriki do meu velho orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé
Um barco que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve meu e-mail até Calcutá
Depois de um hot-link
Num site de Helsinque
Para abastecer
Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut
De Connecticut acessar
O chefe da Macmilícia de Milão
Um hacker mafioso acaba de soltar
Um vírus pra atacar programas no Japão
Eu quero entrar na rede pra contactar
Os lares do Nepal, os bares do Gabão
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na praça Onze tem um vídeopôquer para se jogar
Música: Pela Internet (1996 - lançada na internet e no disco "Quanta gente veio ver" de 1998).
Pôde ser admirado no show "Banda Larga" - Gilberto Gil - em SP no mês de Agosto.
Fotos, vídeos e áudios podem ser visualizados, escutados e baixados na página do projeto 'banda larga' em: www.gilbertogil.com.br

31 Julho 2007

Canto do povo de um lugar

Todo dia o sol se levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia

Fim da tarde a terra cora
E a gente chora
Porque finda a tarde

Quando a noite a lua mansa
E a gente dança
Venerando a noite


Música Canto do povo de algum lugar de Caetano (1975 in Jóia).

Pode ser ouvida em: Renato Teixeira & Pena Branca & Xavantinho Ao Vivo em Tatuí.

Ano: 1992
Gravadora: Kuarup Discos
Interpretação de Pena Branca e Xavantinho

30 Julho 2007

Soy Cuba













"Eu sou Cuba.

Certa vez, Cristóvão Colombo desembarcou aqui.
Ele escreveu em seu diário:
'É a terra mais maravilhosa já vista por olhos humanos.'
Obrigada, Sr. Colombo.
Quando você me viu pela primeira vez, eu sorria e cantava.
Eu saudei as suas velas com a copa de minhas palmeiras.
Achei que seus navios trariam felicidade.

Eu sou Cuba.

Seus barcos, meu açúcar levaram.
Minhas lágrimas, eles deixaram.
Que estranha coisa é o açúcar, Sr. Colombo.
Ele contém tantas lágrimas, e ainda assim, é doce."

Trecho do filme Soy Cuba, de Mikhail Kalatozov

Ficha técnica:
Cuba - 1964
Título original: Soy Cuba
Direção: Mikhail Kalatozov
Roteiro: Enrique Pineda Barnet (Cubano) e Yevgeny Yetushenko (Russo)
Fotografia: Sergei Urusevsky

03 Junho 2007

Pasternak em Jornada da Alma

"Quando você não pode olhar dentro da alma de alguém, tente ir embora e depois voltar."

Frase de Boris Pasternak no filme Jornada da Alma

Ficha Técnica:

Filme


Título: Jornada da Alma
Título original: Prendimi L'Anima
Origem: França - 2003
Direção: Roberto Faenza

Boris Pasternak



Escritor russo (10/2/1890 - 30/5/1969)
Obra principal: Doutor Jivago (Doctor Zhivago), escrito em 1957 (mas publicado na URSS somente em 1988), além de vários poemas.

31 Janeiro 2007

Sim

"Sim, sei bem
Que nunca serei alguém
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser."

Poema 'Sim', de Ricardo Reis.

Pode ser ouvido e lido no Museu da Língua Portuguesa - Estação da Luz.

18 Dezembro 2006

O peru de Natal

"[...] Era costume sempre, na família, a ceia de Natal. Ceia reles, já se imagina: ceia tipo meu pai, castanhas, figos, passas, depois da Missa do Galo. Empanturrados de amêndoas e nozes (quanto discutimos os três manos por causa dos quebra-nozes...), empanturrados de castanhas e monotonias, a gente se abraçava e ia pra cama. Foi lembrando isso que arrebentei com uma das minhas "loucuras":
— Bom, no Natal, quero comer peru.
Houve um desses espantos que ninguém não imagina.
[...] Na verdade ninguém sabia de fato o que era peru em nossa casa, peru resto de festa.
Não, não se convidava ninguém, era um peru pra nós, cinco pessoas. E havia de ser com duas farofas, a gorda com os miúdos, e a seca, douradinha, com bastante manteiga. Queria o papo recheado só com a farofa gorda, em que havíamos de ajuntar ameixa preta, nozes e um cálice de xerez, como aprendera na casa da Rose, muito minha companheira. Está claro que omiti onde
aprendera a receita, mas todos desconfiaram. E ficaram logo naquele ar de incenso assoprado, se não seria tentação do Dianho aproveitar receita tão gostosa. E cerveja bem gelada, eu garantia quase gritando. É certo que com meus "gostos", já bastante afinados fora do lar, pensei primeiro num vinho bom, completamente francês. Mas a ternura por mamãe venceu o doido, mamãe adorava cerveja.
Quando acabei meus projetos, notei bem, todos estavam felicíssimos, num desejo danado de fazer aquela loucura em que eu estourara. Bem que sabiam, era loucura sim, mas todos se faziam imaginar que eu sozinho é que estava desejando muito aquilo e havia jeito fácil de empurrarem pra cima de mim a culpa de seus desejos enormes. Sorriam se entreolhando, tímidos como pombas desgarradas, até que minha irmã resolveu o consentimento geral:
— É louco mesmo!...
Comprou-se o peru, fez-se o peru, etc. E depois de uma Missa do Galo bem mal rezada, se deu o nosso mais maravilhoso Natal. [...]
Bom, principiou-se a comer em silêncio, lutuosos, e o peru estava perfeito. [...] E o peru, estava tão gostoso, mamãe por fim sabendo que peru era manjar mesmo digno do Jesusinho nascido. [...]
Eu nem comia, nem podia mais gostar daquele peru perfeito, tanto que me interessava aquela luta entre os dois mortos. [...]Mamãe comeu tanto peru que um momento imaginei, aquilo podia lhe fazer mal. Mas logo pensei: ah, que faça! mesmo que ela morra, mas pelo menos que uma vez na vida coma peru de verdade! [...]"


Trecho de 'O peru de Natal' de Mario de Andrade, escrito em 1947.

Pode ser lido em: Contos Novos
Ano: 1978
Editora: Livraria Martins
Edição: 8a.
Páginas: 95-103

06 Dezembro 2006

O que será (à flor da terra)

O que será que será
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
Que gritam nos mercados, que com certeza
Está na natureza, será que será
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho

O que será que será
Que vive nas idéias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia-a-dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos, será que será
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido

O que será que será
Que todos os avisos não vão evitar
Porque todos os risos vão desafiar
Porque todos os sinos irão repicar
Porque todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E o mesmo Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno, vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo


Música O que será (à flor da terra) de Chico Buarque (1976).


Pode ser ouvida em: O melhor de Chico Buarque
Ano: 2002
Gravadora: Universal Music

Interpretação de Chico Buarque e Milton Nascimento

17 Novembro 2006

O Mercador de Veneza em O Pianista

Se nos picarem, não sangraremos?
Se nos fizerem cócegas, não rimos?
Se nos envenenarem, não morremos?
E, se nos ultrajarem, não nos vingaremos?

Trecho de O Mercador de Veneza, de Shakespeare (Ato III, Cena I) citado no filme "O Pianista".

Ficha Técnica:

Filme
Título original: The Pianist
Origem: Alemanha/Polônia/França - 2002
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Ronald Harwood







Livro
Obra: O Mercador de Veneza (The Merchant of Venice)
Autor: William Shakespeare
Ano Edição: 2005
Editora: Ediouro
No. de Páginas: 166

31 Outubro 2006

Galáxias (I)

e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso
e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa
não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever
mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para
começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso
recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é
o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-
páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas
mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever
é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo
descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e
forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro
um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro
o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço
e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro
é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro
e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo
da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro
todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-
comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do
comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o
recomêço refina o refino do fum e onde fina começa e se apressa e
regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por
isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta
ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode
ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende
da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada
de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas
e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e
nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total
tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro
e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um
começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco
no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em
nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás
ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo
rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come
não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só
conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem
onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha
onde a migalha a maravilha a apara é maravilha é vanilla é vigília
é cintila de centelha é favilha de fábula é lumínula de nada e descanto
a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala

* Trecho do poema Galáxias de Haroldo de Campos *

Título do poema: ‘Galáxias’
Livro: Haroldo de Campos – Coleção Melhores Poemas
Seleção: Inês Oseki-Dépré
Ano: 2000
Editora: Global


Omar Khayyam I



















"Debaixo de um arbusto, um pão e uma garrafa
De vinho e meus poemas: tudo o que preciso -
E tu, que do meu lado cantas no deserto,
E o deserto se torna, então, o paraíso".
(Omar Khayyam)

Omar Khayyam - poeta persa que pertenceu à época de ouro da civilização islâmica (séculos XI e XII).

Sugestão de declamação do poema:
CD: Poemas Místicos do Oriente
Artista: Marcus Viana
Música: Marcus Viana
Voz: Letícia Sabatella
Ano: 2003
Gravadora: Sonhos e Sons